sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Bordados Flieg, mais de sete décadas bordando a história de São Paulo e do Brasil.

Com muita alegria apresento aos amigos leitores do blog, um pedaço fascinante da história de São Paulo. Fui visitar a tradicional empresa Bordados Flieg, que desde o início da década de 40 trabalha com bordados finos para uso civil e também na confecção de bordados militares - insígnias que são usadas desde 1954 pelas nossas Forças Armadas e posteriormente pela Força Pública / Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Quem nos guiou por esta fantástica visita foi o Sr. Stefan Flieg, que junto com seus pais e irmãos vieram para o Brasil em um dos últimos navios a deixar a Alemanha no turbulento ano de 1939. Com a empresa estabelecida em São Paulo anos depois, começaram a atender diferentes demandas na arte do bordado industrial - do tipo que não se encontra mais atualmente, bordando enxovais e outras peças finas para as mais tradicionais famílias paulistanas. Não demorou para que o excelente serviço prestado pela família alemã chamasse a atenção das Força Armadas, que não possuiam um fornecedor capaz de entregar insígnias com a uniformidade necessária para abastecer a tropa. A partir daí a Bordados Flieg teve um papel relevante também na nossa história militar.

É impossível apresentar aqui nas páginas do blog o processo detalhado de fabricação dos bordados militares, mas pedi para o Sr. Flieg me mostrar estas etapas de forma simplificada. É uma fascinante jornada que envolve história e tecnologia. Como praticamente tudo ao nosso redor, essa técnica artística de bordado foi substituída pelas máquinas de costura computadorizadas, que por mais recursos que disponham, são incapazes de criar um bordado com o grau de técnica e qualidade destes apresentados aqui - desta forma a pequena matéria a seguir é uma homenagem ao legado de artistas como o Sr. Flieg, que trouxeram para o Brasil muito mais do que apenas a vontade de trabalhar.

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A primeira parte deste processo é justamente a criação do desenho segundo a heráldica e o conceito do seu criador - muito provavelmente um militar que foi designado para a missão de criar emblemas ou insígnias para determinada função em sua organização militar. Com o desenho da insígnia que será bordada em mãos, um desenhista amplia o mesmo e esta matriz ampliada será usada para a confecção do cartão perfurado, uma espécie de bisavô dos antigos disquetes de computador. Cada rolo de cartão perfurado guarda as informações de um desenho.

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O desenho a ser bordado é ampliado oito vezes do tamanho original, é marcado ponto a ponto gerando um rolo de fita perfurada que será lida pelas máquinas de costura.

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Abaixo vemos uma imagem dos cartões perfurados para mecanismos Jacquard (Joseph-Marie Jacquard 1752-1834 mecânico francês inventor do tear mecânico) que alimentam as máquinas de costura.

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Para transferir a informação do cartão perfurado para o tecido é usada uma máquina que veio da Alemanha para o Brasil juntamente com a família Flieg no ano de 1939: Uma Würker-Automat de três cabeças. Na foto abaixo vemos a placa de aço que "pilota" a cabeça da agulha em todas as direções. Essa tecnologia é a precursora da memória usada nos computadores de hoje em dia.

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Sr. Flieg e a antiga máquina Würker, que lê os cartões Jacquard e transfere o desenho para o tecido.

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Este exemplar da Würker veio para o Brasil no início da 2a Guerra. A Fábrica em Dresden foi demolida pelo bombardeio em fevereiro de 1945.

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Na sequência de imagens abaixo vemos os cartões Jacquard sendo lidos pela máquina e o desenho que foi criado no papel sendo transferido para o tecido.

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O resultado é um bordado uniforme com pontos bem definidos, que realçam o desenho da insígnia e são aplicados em diversos padrões de uniforme e camuflagens. Neste caso vemos as insígnias do curso de Controle de Distúrbios Civis da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

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Olhando de perto podemos notar a uniformidade dos fios em todas as direções. É uma obra de arte em tamanho miniatura!

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Carretéis com fios de todas as espécies e procedências trazem as cores e dão aos bordados um aspecto absolutamente único.

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O Sr. Flieg nos explica como as máquinas Consew (cuja fabrica foi criada em 1898) eram usadas por bordadeiras com larga experiência para dar pequenos retoques nos bordados quando necessário. Trabalho minucioso realizado unidade por unidade.

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A agulha é "pilotada" usando o joelho e os pés.

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Nas imagens a seguir podemos ver algumas das peças militares produzidas ao longo das décadas de existência da Bordados Flieg. São uma pequena amostra de uma infinidade de insígnias militares usadas por todo o Brasil. Peças únicas cuja qualidade é conhecida entre os clientes - alguns deles daqui de São Paulo literalmente atravessam a cidade para poder adquirir o bordado de seu uniforme.

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Bordados antigos fabricados para a Força Aérea Brasileira. Hoje são peças históricas que contam a trajetória da nossa aeronáutica.

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Reparem no trabalho de sobreposição de diferentes tecidos usados como base para o bordado. Uma técnica que desapareceu com a tecnologia empregada atualmente - mas que está preservada nestas antigas insígnias.

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Bordados usados pela Aviação Naval da Marinha do Brasil.

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Antigos bordados usados pelo Exército Brasileiro.

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sexta-feira, 10 de outubro de 2014

José Eugênio de Rezende Barbosa - Batalhão 14 de Julho

Apresento hoje um belíssimo lote que foi confiado aos meus cuidados pela Sra. Martha Rezende Barbosa - peças que pertenceram ao seu pai Sr. José Eugênio de Rezende Barbosa, voluntário do Batalhão 14 de Julho durante a Revolução de 1932. Agradeço imensamente a Sra. Martha pelas peças e compartilho um pouco desta história com os leitores do blog, que certamente irão vibrar assim como eu!
José Eugênio de Rezende Barbosa nasceu em 20 de novembro de 1912, na cidade de São Simão, Estado de São Paulo e faleceu aos 91 anos, na capital paulista. Foi mé­dico otorrinolarin­gologista, diplo­mado pela Faculdade de Medicina da Univer­sidade de São Paulo, em 6 de janeiro de 1936. Desde formado, trabalhou gratuitamente na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo dentro de sua especialidade, sendo nomeado Chefe de Clínica. Cerca de 50 anos mais tarde, se aposentou como Professor da Faculdade de Ciências Médicas, tendo sido um dos seus mais entusiasmados membros e trabalhado com afinco para sua fundação. Recebeu diversos prêmios em reconhecimento de sua atuação profissional tais como o Prêmio Honório Líbero (1944) e Mário Ottoni de Rezende (1947). Ele foi casado com Lia Junqueira Netto de Rezende Barbosa, falecida em 1993, com quem teve cinco filhos (Ricardo, Tereza, Martha, Mara e Henrique) ao longo de mais de 50 anos de uma vida feliz.
Abaixo vemos cartas e postais de José Eugênio para a sua futura esposa Lia Junqueira Netto de Rezende. O Batalhão 14 de Julho atuou na Frente Sul em Buri, Faxina, Capão Bonito, Rio das Almas, Itapetininga e outras localidades da região que faz fronteira com o Paraná.

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Na imagem a seguir vemos um par de bibicos usado por José Eugênio e pela Sra. Lia Junqueira em 1932. É interessante notar o nome 14 de Julho no bibico caqui, e as bandeiras cruzadas no bibico azul.

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Uma das peças que compõe o lote é a figurinha número 99 do Album Paulista.

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O capacete de aço é um dos itens mais interessantes, pois sua pintura está 100% conservada e o capacete foi mantido em local adequado durante 82 anos - resultando em uma peça com aparência de recém fabricada.

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Nas imagens a seguir vemos as contribuições do Sr. José Eugênio, ao Partido Constitucionalista de Armando de Salles Oliveira.

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Um pelotão do Batalhão 14 de Julho em 1932. A direita na segunda fileira de baixo para cima, o jovem Clineu Braga de Magalhães.

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Sr. José Eugênio de Rezende Barbosa e Sra. Lia Junqueira Netto de Rezende Barbosa.

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segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Mais distintivos paulistas

Trago aos leitores do blog mais alguns interessantes distintivos paulistas criados por ocasião da Revolução de 32. O primeiro deles é o distintivo do 1o Batalhão Paulista da Milícia Civil, figurinha número 70 do Album Paulista.

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Abaixo vemos o distintivo da Cruzada Pro Infância, entidade que em 1932 prestou toda a assistência para as famílias dos combatentes das trincheiras.

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Finalizamos com uma bela alegoria com um capacete de aço e uma espada e os dizeres TUDO PELA PÁTRIA.

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sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Túnicas da antiga Guarda Civil

Apresento aos leitores duas túnicas da antiga Guarda Civil de São Paulo. Ambas com corte elegante e na famosa cor azul marinho que eternizou a coorporação, as peças sobreviveram a algumas décadas em muito bom estado. Na primeira delas abaixo, é interessante notar o uso das estrelas na gola e nos botões, semelhantes aos usados nos uniformes da Força Pública.

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Já na túnica abaixo (provavelmente usada no inverno) vemos o botão "liso" apenas com as estrelas ao redor, sendo esta uma túnica de Inspetor, mais recente que a primeira.

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Para fechar esta postagem com "chave de ouro" trago uma raríssima imagem de São Paulo nos anos 50-60 originalmente a cores, garimpada na internet. A túnica é a mesma mostrada acima e a cobertura foi mostrada neste link.

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