quinta-feira, 1 de julho de 2010

A Batalha do Morro do Gravi em Itapira

Neste primeiro dia do mês de Julho, o Tudo por São Paulo abre espaço para o nosso amigo Eric da cidade de Itapira, que nos traz um excelente post sobre a batalha que aconteceu em sua cidade durante a Revolução de 32.

Através de telegramas inéditos é possível perceber a intensidade do que ocorreu ali em 1932.
No final do post, mostro algumas fotos que eu tirei quando visitei a cidade a alguns meses atrás. Na ocasião o monumento no Morro do Gravi estava bastante maltratado. Esperamos que já tenha sido devidamente reconstituído em nome da memória daqueles que ali tombaram.

No próximo post veremos imagens raras do Brasão da Cidade de São Paulo.
Não percam!


Boa leitura,
Ricardo

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"Nas noites sem luar, pela imensidão, ainda se pode escutar o troar dos canhões fantasmas do Morro do Gravi, nos seus campos sulcados de cadáveres dos jovens que, neste turbilhão mortífero, congelaram seus sonhos...”
por Eric Lucian

É impossível resumir em poucas palavras um dos acontecimentos mais importantes durante a Revolução de 32 em São Paulo. A lendária batalha do Morro do Gravi, palco da bravura e patriotismo paulista.
A cidade de Itapira foi extremamente importante para segunda metade da Guerra. Mais especificamente, durante a última semana de agosto e as 2 primeiras semanas de setembro.

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Voluntários Itapirenses na Estação de Eleutério.

No dia 10 de julho de 1932 logo após o início da revolução, o Delegado de Polícia recomendou que fossem levados para a Capital os soldados da Força Pública lotados na Cadeia e na Delegacia de Itapira com a missão de trazer armas e munições para a cidade. Chegando na Capital, os policiais foram desembarcados na Avenida Tiradentes. Receberam cerca de 80 fuzis que foram levados para a prefeitura de Itapira. No dia 14, o Batalhão de Voluntários Itapirenses seguiu rumo à Pouso Alegre, transportados por caminhões, fazendo paradas em Monte Sião e Borda da Mata.

Durante esses primeiros dias, houve um grande interesse por parte de toda a população local, fortalecida pela chegada a Itapira da Caravana Cívica, destinada a propagar o movimento e da qual faziam parte o Dr. Vicente de Azevedo, promotor publico da capital; Dr. Fabio de Camargo Aranha, conhecido advogado; Dr. Boaventura Nogueira da Silva, advogado e jornalista também na capital; e o coronel Cianciulli, ex-comandante do Corpo de Bombeiros da Força Pública.

Pelo resto do mês de agosto, a cidade, muito empolgada com o ideal constitucionalista se preparou com todo o entusiasmo, e porque não, com uma certa dose ingenuidade sobre o que seria a guerra.
Na quinta-feira, dia 04 de agosto, como medida de prevenção, iniciou-se no município a fabricação do pão de guerra.
No dia 14, domingo, instalou-se a Casa do Soldado, com o objetivo de fornecer sanduíches, refrescos, cigarros, etc... às tropas constitucionalistas deste setor.

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Oficiais do Exército e da Força Pública em Itapira

Ao final do mês de agosto, a cidade se depara com a guerra batendo as suas portas: Tropas federalistas chegam ao distrito de Eleutério, que fica a apenas alguns quilômetros de Itapira. Lá começou um combate intenso que se travou por 2 semanas:

25.08.1932 - Telegrama do Comte. João Dias (Mogi Mirim) ao Comte. Alfieri (São Paulo): “Inimigo iniciou ofensiva contra Eleutério precedida de violento bombardeio com 4 peças de artilharia. Reitero pedidos e concurso aviação, artilharia, etc., principalmente munição. Saudações.”

27.08.1932 - Telegrama do Comte. João Dias (Mogi Mirim) ao Comte. Herculano (São Paulo) – 1205 – Respondendo, informo que Comte. Higino guarnece margem do Rio do Peixe nas alturas da estrada de ferro e das estradas de rodagem que partem de Itapira a uma distância de quatro quilômetros mais ou menos, em pequena direção de Ataliba Nogueira. Esta manhã, os nossos homens cansados e com moral enfraquecida abandonavam trincheira abrindo passagem tropas adversárias. Determinei Higino que em pessoa dirigisse uma nova linha de resistência empregando todos os esforços para conter os seus homens nessas condições. Mandei 200 homens do batalhão General Osório e neste momento 4 aviões nossos atacam avanço adversário. Aguardo resultado para prestar outros esclarecimentos. A situação é aflitiva. Convém garantir Campinas, Jaguari e Mogi Mirim. Vou organizar terreno Mogi fazendo fortificações ao meu alcance. Outros setores também atacados neste momento. Estou agindo como posso. Saudações”.

27.08.1932 - Telegrama do Comte. João Dias (Mogi Mirim) ao Comte. Alfieri (São Paulo) “Acabo receber telegrama tte. Cel. Higino. Situação gravíssima, grande parte batalhão voluntários não fica nas trincheiras e recua dando passagem adversários que mantém forte pressão”.

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Forças Ditatoriais do Rio Grande do Norte no Parque Juca Mulato em Itapira.

A cidade de Itapira, cuja grande maioria das famílias já haviam fugido para as fazendas e sítios vizinhos à cidade, agora é completamente evacuada. O Comandante João Dias envia o telegrama abaixo para o General Klinger:

28.08.1932 – Telegrama do Dr. João Neves (Mogi Mirim) ao Gel. Klinger (São Paulo) “Passagem destino Itapira fui procurado prefeito delegado técnico; extremamente grave situação Itapira que está sendo evacuada; dada situação e perigo imediato, Mogi Mirim é objetivo inimigo rogo reforços”.

30.08.1932 - Telegrama do Comte. João Dias (Mogi Mirim) ao Comte. Alfieri (São Paulo) “Acabo receber telegrama Major Santino:” A partir de 22 horas tem-se combatido no centro e na ala esquerda do setor, sendo com muita intensidade nessa última. Tropa fatigadíssima a custo ingente esforços mantém ainda em boa parte nas posições tropas voluntárias que a tempo vem se batendo nessa frente. Tenho a acrescentar que a tropa de voluntários é a do “9 de julho” e o “Rio Grande do Norte” que desde início se batem neste setor“.

As posições no Morro do Gravi já estavam ocupadas pelo batalhão 9 de julho, do Major Rabillot, e o 6º R.I. do Major Marco Antonio, do Exército desde algumas horas antes de se deixar Itapira. A retirada em desordem se fez de trem, e pela rodovia, a pé e em caminhões.
Pedido desesperado do Comte. João Dias ao Comte. Herculano para passar o comando das tropas:

30.08.1932 - Telegrama do Comte. João Dias (Mogi Mirim) ao Comte. Herculano (São Paulo) “Apenas 400 homens protegem frente diminuta do morro do Gravi em defesa de Mogi Mirim; insuficiente essa proteção; acabo embarcar para São Paulo 800 estropiados... Comando tropas que tem pavor do inimigo, abandonam as linhas em massa, procuram a retaguarda... peço permissão hoje mesmo passar comando tte. Cel. Rocco... saudações”.

Abandonada Itapira ao adversário na tarde de 30 de agosto, resolveram os soldados retirantes reorganizar-se no morro do Gravi, e ocupar as trincheiras abertas, às pressas três dias antes.
Na noite desse mesmo dia embarcaram para Campinas cerca de 800 voluntários. Suas armas foram passadas para cerca de 300 homens do batalhão “9 de julho”, já em posição no Morro.

30.08.1932 - Telegrama do Comte. João Dias (Mogi Mirim) ao Comte. Herculano (São Paulo) “Situação Itapira agrava-se, combate recrudesce, inimigo reforçado e renovado; nossa tropa extenuada está impossibilitada continuar luta. Chove torrencialmente. Há falta de munição, mesmo com esta e sem tropa fresca não poderemos resistir e seremos vencidos; urge providências imediatas”.

04.09.1932 - Telegrama do Tte. Virgílio (Mogi Mirim) ao Comte. Alfieri (São Paulo) “... Major Marco Antônio comunica batalhão 9 de Julho fez recuo descobrindo flanco R.I. no Morro do Gravi, estando este último recebendo quase pela retaguarda. Esta situação é conseqüência do bombardeio aéreo conjugado com os da artilharia; Major Marco Antônio cogita possível retirada nossas forças”.

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Trabalho de identificação e retirada dos restos mortais no Morro do Gravi.

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Cerimônia realizada no local, em 1957.

...

No Morro do Gravi, dezenas de homens, paulistas; mineiros; nordestinos; nortistas; mas acima de tudo, Brasileiros, morreram em prol de uma nobre causa.
O tempo apagou as marcas das balas dos fuzis, silenciou os canhões... O mato e a erosão reviraram as trincheiras, apagando quase todos os vestígios dos dias em que o Morro do Gravi foi acima de tudo, palco de um episódio da maior mobilização social brasileira de todos os tempos. Hoje,  o sangue dos entrincheirados não corre mais, o barulho aterrador dos vermelhinhos derramando bombas sobre Itapira foi esquecido, mas ainda assim, nas noites sem luar, pela imensidão, ainda se pode escutar o troar dos canhões fantasmas no Morro do Gravi, dos seus velhos campos sulcados de cadáveres dos jovens que, neste turbilhão mortífero, congelaram seus sonhos.

Abaixo vemos algumas fotos atuais do local da batalha, a beira da antiga estrada Mogi-Itapira e uma foto do parque Juca Mulato.

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Sobre o Autor:
Eric Lucian Apolinário, 20 anos.
É licenciando em História pela Faculdade Maria Imaculada de Mogi Guaçú.
Historiador e Pesquisador, atualmente trabalha em um livro sobre a Revolução Constitucionalista na Cidade de Itapira.
Para entrar em contato basta adicionar um comentário no link abaixo.

13 comentários:

  1. na foto dos soldados "ditatoriais" no Parque Juca Mulato, em Itapira, há pelo menos 3 capacetes de aço "tipo britânico" e 3 do tipo " francês", seriam "troféus" capturados/abandonados pelos soldasos paulistas ou....esses soldados são paulistas ???

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  2. Prezado Mauri,

    São soldados do 29o Batalhão de Caçadores de Natal/RN. Existem outras fotos desse grupo nesta localidade que não foram publicadas aqui no blog.
    Eles estavam chegando de Eleutério, aonde provavelmente tiveram acesso a vasto material deixado por soldados paulistas em retirada.

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  3. Sensacional o relato. Material super bacana.
    Gostaria de saber mais sobre os confrontos nessa região
    Segue meu e-mail para contato
    andbahia@yahoo.com.br

    Abraço

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  4. Parabéns pelo blog! Excelentes fotos! Tive o privilégio de participar primeira vez em Itapira/SP desta última homenagem (09 de Julho/10) no morro do Gravi e também participei em 2006, 2007 e 2008 em São Paulo/SP, no Ibirapuera. É simplesmente emocionante! Principalmente quando se toca Paris-Berfort.

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  5. João Marcos Carvalho27 de agosto de 2010 23:25

    Parabéns pelo trabalho. Permita-me fazer dois registros: na segunda foto, de cima para baixo, aparece, de quépi, no centro da mesma, o coronel Herculano de Carvalho e Silva, então comandante-geral da Força Pública de São Paulo. Ele assumiu o comando da corporação com a morte do coronel Júlio Marcondes Salgado, em 23 julho de 32.
    Com a derrota paulista, assumiu o governo de SP, entregando-o, dois dias depois (4 de outubro), ao general Waldomiro Castilho de Lima, que havia comandado as tropas ditatorais na Frente Sul.
    Há um equívoco na legenda da foto que identifica um pelotão no parque Juca Mulato como sendo força ditatorial do RN.
    Na verdade,trata-se de parte de um batalhão de voluntários paulista denominado "Rio Grande do Norte", que, juntamente com o "9 de Julho", defendeu Itapira com as forças de Getúlio.

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  6. Prezado João Marcos,
    Antes de mais nada gostaria de agradecer por tantas informações relevantes ao blog! Gostaria inclusive que o Sr. pudesse entrar em contato através do email tudoporsp1932@gmail.com para podermos trocar informações.

    Sobre a tropa no Parque Juca Mulato, tenho algumas outras fotos mais próximas e a mim não parecem soldados paulistas. Gostaria de aprofundar mais essa questão.

    Um abraço,
    Ricardo

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  7. João Marcos Carvalho30 de agosto de 2010 14:18

    Correção: na última linha do texto em que falo da suposta tropa do RN, leia-se: "que defendeu Itapira contra as forças de Getúlio".
    Ricardo, vou entrar em contato pelo seu e mail. Obrigado pela atenção.

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  8. João Marcos Carvalho31 de agosto de 2010 15:13

    Caro Ricardo,

    Revendo documentos dos batalhões que atuaram em 32, faço a seguinte retificação: o batalhão de voluntários paulista "Rio Grande do Norte" lutou no Vale do Paraíba. Já o "29º Batalhão de Caçadores", sediado em Natal (RN), combateu da região de Itapira ao lado do 4º Regimento de Cavalaria Divisionária, com sede em Três Corações (MG), sendo esse último comandado pelo então coronel Eurico Gaspar Dutra, que foi presidente da República entre 1946-51. Portanto, tudo indica que os soldados que aparecem no Parque Juca Mulato são do 29º BC, conforme indica a legenda.
    Peço a você que publique as fotos restantes desse batalhão para que todas as dúvidas possam ser dissipadas.
    Obrigado.
    João Marcos Carvalho

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  9. Por acaso saberia me dizer por que este morro recebe o nome de "gravi"?

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  10. Não é de hoje que o "TUDO POR SÃO PAULO" vem trazendo magnificas reportagens e depoimentos sobre a EPOPÉIA DE 32. Meus parabens ao RICARDO DELLA ROSA e a todos que vêm contribuindo para essas pesquisas tão elucidativas, como é o caso do MORRO DO GRAVI, em ITAPIRA.

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  11. João Marcos Carvalho, sua retificação está errada, o denominado Batalhão Rio Grande Do Norte, aquele cujo a sua grande maioria era formada de VOLUNTÁRIOS CIVIS, o dos Paulistas na Revolução Constitucionalista de 1932, lutou no fronte de ELEUTÉRIO que é região de Mogi das Cruzes e Mogi Mirim, posso lhe garantir isso. Meus Tios/Avôs Capitão Leônidas Pereira de Almeida, e seu irmão o Cabo Mauro Pereira de Almeida, mais os cunhados e sobrinho deles, Nestor Cana Brava, Alberto Soares com o filho mais velho, e o cunhado do Capitão: Afonso Van Haute, e outro Tio/Avô meu: Sálvio Ribeiro Do Val, estavam lotados no Batalhão RIO GRANDE DO NORTE e lutaram no fronte de ELEUTÉRIO por SÃO PAULO! flavio.rvm_preview@hotmail.com

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  12. Ricardo!!! Gostaria apenas de acrescentar uma legenda à fotografia que consta "Oficiais do Exército e da Força Pública em Itapira". Encontrei a original há alguns meses, e no seu verso estão os nomes de alguns oficiais paulistas que, tenho certeza, ajudarão ainda mais na compreensão de nossas pesquisas. Segue a legenda correta: "Tenente Cruz (o baixinho), Tenente Coronel João Dias de Campos, Major Santino, Cel. Herculano Carvalho, Francisco Vieira (cognominado o Homem de Aço). Itapira"
    Provavelmente, essa fotografia foi tirada em Agosto de 1932, quando Herculano visitou as trincheiras de Eleutério!
    Sempre no contato! Grande abraço!

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  13. Meu pai contava que combateu neste local como voluntario e ao ver estes relatos e fotos, fico muito empolgado pois ouvi muitas historias dele sobre esta guerra.
    Edson Lucio

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