quinta-feira, 12 de agosto de 2010

José Cunha de Oliveira, Batalhão 23 de Maio

Ricardo, tudo bem ?
Mostrei vosso Blog para minha mãe, dona Irene, hoje com 88 anos e algo interessante aconteceu !! Ela passou a contar-me muitas história sobre meu pai, José Cunha de Oliveira, coisas da época da Revolução de 32.

Perguntei-lhe se lembrava do "capacete de pano" ( cata-ovos ) que foi de meu pai e com o qual eu brinquei muito.
Ouvi estarrecido que "aquele" capacete de pano não era do meu pai!
Naquela época era muito comum uma brincadeira entre os soldados de "desaliviar" equipamentos dos outros, ou seja, roubar em caráter de brincadeira, tipo um trote, utensílios e peças de fardamentos uns dos outros !!! Mostrou-me então uma foto do meu pai da época da Revolução, ele é o único que está sem cobertura na cabeça...seu capacete de pano havia sido "desaliviado"!

Photobucket

A foto é da guarnição de uma das trincheiras ao longo do Rio do Peixe, no município de Socorro e são de integrantes do Batalhão 23 de Maio, comandado pelo Padre Luís, de Amparo. Ali todos devem ser amparenses (acho!). Note a cara de desapontado (e bravo) de meu pai... O capacete de pano com o qual eu brincava tinha em sua parte da frente um destintivo metálico circular, verde na parte externa, amarelo na parte intermediária e azul no centro, por dentro tinha a inscrição, BAHIA. Um dia, lendo o diário de um primo de meu pai, que serviu no mesmo batalhão, minha mãe soube que durante uma patrulha noturna, renderam uma patrulha adversária, a primeira coisa que meu pai fez foi "desaliviar" um capacete de pano de um inimigo! Ces't la guérre...

Outro "causo" é que alguns dias depois, ao entardecer, um oficial do Exército veio até a trincheira e informou que possivelmente o inimigo faria ataques de sondagem por aqueles lados, então todo movimento que viesse do lado de Minas, pela estrada de terra que vinha de Munhoz, deveria ser repelido. Depois do oficial ir embora, veio o caminhão que trazia o jantar e após abastece-los, foi pelo meio do mato levar o jantar para outra trincheira.
Na volta, como já estava bem escuro, o motorista decidiu voltar pela estrada de terra, "aquela" que vinha de Minas, com medo de se perder pelo mato. Por sorte o motorista nada sofreu, mas o caminhão precisou ser rebocado, de tanto tiro que levou por parte do pessoal da trincheira do meu pai !!!
No dia seguinte o pessoal todo da trincheira recebeu voz de prisão e foram levados para Socorro, onde ficaram sentados na praça central em frente a Matriz, aguardando uma reunião entre o tal oficial do Exército e oficiais da Força Pública que queriam levar o Batalhão todo preso para a capital, por fim o oficial do Exército segurou a barra deles e convenceu os oficiais da Força Pública de que eles apenas tinham cumprido ordens e a culpa tinha sido do motorista do caminhão... (ambos, motorista e caminhão eram da Força Pública !! ).

Também através da leitura deste mesmo diário do primo de meu pai, ela soube que o primeiro tiro disparado pelo Batalhão 23 de Maio, na Revolução, foi por "arte" de meu pai, ele estava na cabine de um caminhão que integrava uma coluna formada por efetivos de Batalhão 23 de Maio, Batalhão do Brás e integrantes da Força Pública e que se dirigiam a Pouso Alegre para se juntar a forças militares que estavam aquarteladas naquela cidade, isso antes de Minas se bandear para o lado do Getúlio. Como estava em dúvida se o seu fuzil Mauzer estava travado ou não, ao invés de verificar apenas olhando a trava da arma, como estava com muito sono e a arma estava enconstada entre seu corpo e a porta do passageiro, decidiu apertar o gatilho!
O tiro saiu pela capota da cabine do caminhão...a coluna toda parou, pensando ser início de um combate, isso foi a noite, entre Jacutinga e Ouro Fino...só na manhã seguinte, quando estavam entrando em Pouso Alegre, é que a guerra de verdade começou.

Por fim minha mãe lembrou-se de um óculos de aviador, que por muitos anos ficou guardado em sua escola em Amparo, como recordação da Revolução.
Quando o 23 de Maio tentou retomar Amparo e foi emboscado, caindo prisioneiro quase todo Batalhão, seus cativos foram levados amarrados em fila indiana até a praça que ficava em frente a estação da Mogiana de Amparo para serem embarcados em trem para o cativeiro no Rio de Janeiro. Então apareceu um avião "vermelhinho" paulista e passou a atacar com rajadas de metralhadoras o agromerado viaturas e de soldados na praça em frente a estação, aliás, o QG das tropas federais era ali mesmo, em um hotel defronte a Estação da Mogiana, Hotel Beraldo se não me engano.
O piloto depois de alguns mergulhos cuspindo fogo de suas metralhadoras deve ter achado esquisito a fila de soldados que não corria para se esconder de seu ataque, então fez uma passagem baixa, sem atirar. Percebeu a fila de prisioneiros paulistas, ganhou altura, depois voltou e jogou seus óculos de piloto com um bilhete pedindo desculpas por atirar em força amiga. Segundo minha mãe havia a inscrição RUBY na lateral deste óculos.

Em tempo, gostei de ver a farda de tenente médico da Revolução, pois eu também já fui um segundo tenente médico do Exército Brasileiro.

Conforme dona Irene for tendo de volta suas lembranças, vou repassando-as.

Grande abraço,
Mauri Otávio
(mauricunha@yahoo.com.br)

5 comentários:

  1. Este blog... Este éO BLOG! =)
    Não duvido que Ricardo deve estar muito satisfeito, pois seu objetivo já foi superado: 32 está sendo divulgado E compartilhado!
    Muito saboroso "ouvir" essas histórias que nenhum livro comportou.
    Ao Sr. José, Deus o Tenha!
    Parabéns ao amigo Mauri e Dona Irene pelas recordações compartilhadas.
    Felicidades!

    ResponderExcluir
  2. Ouvir esses causos que não estão nos livros e poder ver objetos da maneira que estão representados, torna a visita a este site uma verdadeira experiência. Agradeço a Dona Irene pelas lembranças!

    ResponderExcluir
  3. A Sociedade Veteranos de 32-MMDC congratula-se com o amigo RICARDO DELLA ROSA pelo seu grande trabalho no blog "TUDO POR SÃO PAULO". Praticamente você está eternizando o episódio nacional conhecido como Movimento Constitucionalista, que muitos ainda não conhecem.
    Caro RICARDO você realmente merece a medalha MMDC que recebeu em noite inesquecível na Câmara Municipal em 25 de maio.
    Mais uma vez parabéns pelo trabalho magistral em defesa da história de nossa Nação.

    ResponderExcluir
  4. Prezado Coronel Ventura,

    Agradeço novamente todo apoio e incentivo que venho recebendo da Sociedade Veteranos de 32!
    Muito obrigado e um grande abraço,
    Ricardo

    ResponderExcluir
  5. Três conterrâneos meus de Americana SP (dos quais me orgulho muito) tombaram com a 3ª CIA do 23 de Maio no cerco a estrada Socorro - Lyndoia, junto com o Capitão Manoel S. Sobrinho. Cujo nome inclusive é o da rua que faz fundos a minha residência em Americana.

    Sds,

    Fernando Setin

    ResponderExcluir