"O Brasil espera que cada um cumpra o seu dever."

Em 11 de junho de 1865, a esquadra naval brasileira em operação contra o Paraguai encontrava-se a 15Km ao sul de Corrientes na Argentina, em um trecho conhecido como Riachuelo, na embocadura dos rios Paraná e Paraguai. Naquela fria manhã de domingo o céu estava completamente sem nuvens, uma leve brisa deixava a temperatura de 10o ainda mais gélida. Preparativos estavam sendo feitos para a comemoração religiosa da Santíssima Trindade e a missa que seria celebrada nas naus capitânias Amazonas e Jequitinhonha já estava começando. Estavam presentes naquele momento as seguintes forças brasileiras em um total de 2.287 Homens:
2a Divisão - Chefe de Divisão Francisco Manuel Barroso
Amazonas, Fragata sob o comando de CF Teotônio Raimundo de Brito
Parnaíba, Corveta-aviso, CF Aurélio Gracindo Fernandes de Sá
Iguatemi, Canhoneira, Ten. Justino José de Almeida Coimbra
Araguarí, Canhoneira, Ten. Antonio Luís Von Hoonholtz
Mearim, Canhoneira, Ten. Elisário José Barbosa
3a Divisão - CM José Secundino de Gomensero
Jequitinhonha, Corveta, CT Joaquim José Pinto
Beberibe, Corveta, CT Joaquim Bonifácio de Santana
Belmonte, Corveta-aviso, Ten. Joaquim Francisco de Abreu
Ipiranga, Canhoneira, Ten. Álvaro Augusto de Carvalho
Abaixo uma imagem da Fragata Amazonas.

As 09:00 a Mearim iça o sinal INIMIGO À VISTA. A esquadra paraguaia com oito navios rebocando chatas fortemente armadas vinha descendo rápido a correnteza em direção dos brasileiros. São 2.500 paraguaios embarcados mais 2.000 nas margens. SÃO OITO OS NAVIOS AVISTADOS é o aviso em seguida emitido pela mesma nau. A Amazonas então iça os sinais PREPARAR PARA COMBATE seguido de SAFA GERAL, DESPERTAR FOGOS DAS MÁQUINAS e SUSPENDER OU LARGAR AMARRAS POR ARINQUES E BÓIAS, OU POR MÃO, COMO MELHOR CONVIER.

Ressoam pelo Riachuelo vivas a Sua Majestade o Imperador, à Nação e ao Chefe Barroso, porém o entusiasmo geral torna-se um visceral grito de guerra quando a Amazonas desfralda o aviso O BRASIL ESPERA QUE CADA UM CUMPRA O SEU DEVER, seguido de ATACAR E DESTRUIR O INIMIGO QUE ESTIVER MAIS PRÓXIMO.
As 09:25 disparam-se os primeiros tiros de artilharia com dupla carga de bala e de metralha. A Mearim afunda uma chata paraguaia com um tiro a queima-roupa. A Jequitinhonha e a Paranaíba atacam a Jejuí. Tiros de metralha (pedaços de correntes, pregos e ogivas) são disparados de muito perto e o convés dos navios "encontram-se escorregadios devido ao sangue dos mortos".
10:50. Move-se a esquadra brasileira, com a Belmonte na vanguarda investindo pelo canal e seguida pelos demais navios. A capitânia Amazonas volve águas-abaixo com Barroso aos brados no passadiço: "Atacar e desruir o inimigo mais próximo". Comanda no grito e é prontamente obedecido. A Belmonte busca as margens para combater as peças em terra e acaba apanhada por fogo cruzado indo encalhar na Ilha Cabral. Todos os demais navios se batem ferozmente.
11:25. A Amazonas investe na vanguarda, abrindo fogo à distância de tiros de pistola da bateria inimiga, seguida pela Beberibe, Mearim e Araguari, que repele uma tentativa de abordagem e paga um duro tributo imposto pelas baterias paraguaias.
12:10. A Ipiranga monta a mosquetaria Santa-Catarina e abre fogo realizando a passagem com avarias numerosas acima e debaixo da borda.
13:00. A Parnaíba e a Jequitinhonha sofrem abordagem de diversos navios inimigos.
"O contingente que defende a praça d´armas e câmara, juntamente com o grosso que se armara no convés, acomete enérgicamente o inimigo a tiro de fuzil e a ferro frio". Eram 575 atacantes contra 263 defensores da Parnaíba.
Morrem o guarda-marinha João Guilherme Greenhalg defendendo a bandeira brasileira e o marinheiro Marcílio Dias, que lutando com quatro paraguaios ao mesmo tempo, consegue matar dois mas é ferido mortalmente. Em socorro a Parnaíba quase tomada pelos paraguaios, acorrem a Amazonas, a Beberibe e a Mearim. Juntas conseguem repelir o assalto paraguaio. Barroso então manda subir o sinal SUSTENTAE O FOGO QUE A VITÓRIA É NOSSA e executa a manobra decisiva para o sucesso da batalha: Usa o seu navio de ariete para afundar o Jejuí, o Marquês de Olinda e o Salto.
Das nove da manhã as quatro da tarde foi renhido o combate entre as duas esquadras.
Os quatro navios paraguaios restantes batem em retirada perseguidos pela Araguari do Ten. Antonio Luís Von Hoonholtz, o futuro Barão de Teffé. A luta prosseguiu nas barrancas até o pôr-do-sol. A noite o Paraguai já estava definitivamente isolado e sem acesso ao mar, o domínio da esquadra brasileira era total. Com essa importante vitória o Brasil começa a mudar o rumo da Guerra do Paraguai e passa a controlar os rios da bacia platina até à fronteira com o Paraguai.
104 mortos, 123 feridos e 20 desaparecidos brasileiros. O inimigo teve fora de combate, a bordo, entre mortos, feridos, afogados, comprimidos pelos costados dos navios e prisioneiros aproximadamente 1.500 praças.
Transcrever aqui no blog os inúmeros trechos das cartas que narram a batalha escritas pelos Comandantes dos navios seria impossível, mas recomendo fortemente à todos que se interessem pelo episódio que procurem a bibliografia citada no final deste post. É absolutamente impressionante o que ocorreu durante aquele dia entre as duas esquadras, e lamentável que o fato seja tão pouco lembrado ultimamente.
Abaixo a Medalha do Combate Naval do Riachuelo, criada em 18 de Novembro de 1865 sob o decreto nº 3529.

PETRUS II.D.G.CONST.IMP.ET.PERP.BRAS.DEF
D. Pedro II, com a Graça de Deus Imperador Constitucional e Perpétuo Defensor do Brasil.

No Centenário da batalha, inúmeras peças comemorativas foram criadas. Abaixo vemos algumas delas.

Os sinais náuticos mais célebres daquele glorioso dia.

O Almirante Barroso ao descrever a batalha em carta para o Visconde de Tamandaré, inicia a mesma com "Não fizemos tudo, mas fizemos tudo o que pudemos".

Almirante Barroso, Greenhalgh e Marcílio Dias.


"Um país sem memória não é apenas um país sem passado. É um país sem futuro."
Rui Barbosa
BIBLIOGRAFIA: Riachuelo, Comemoração da Gloriosa Jornada. Ernesto Senna, Rio de Janeiro 1908; Riachuelo, Didio Costa, Imprensa Naval 1949; Dicionário das Batalhas Brasileiras, Hernâni Donato, BIBLIEX 1996.


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