sexta-feira, 22 de julho de 2011

Capacete do Trem Blindado TB6 - O Fantasma da Morte

Quando tive contato com este capacete, não fazia idéia do volume de informações que poderia obter sobre ele. Trata-se de uma peça que não foi muito bem conservada e portanto a identificação das marcações no casco e na carneira foram bem difíceis: Depois de uma limpeza superficial para remover o acúmulo de sujeira, apareceu na parte frontal a indicação 3o G.A.C. e no verso G.T. Blindado - não muito visíveis, mas estão lá.

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Ao pesquisar qual unidade seria o 3o G.A.C inicialmente encontrei informações sobre o 3º Grupo de Artilharia de Campanha Autopropulsado com base em Santa Maria no Rio Grande do Sul - unidade que combateu os paulistas durante a revolução, não poderia ser esta (mesmo porque em 1932 esta unidade operava sob a denominação de 5º Regimento de Artilharia Montada).

Porém com um pouco mais de pesquisa cheguei ao 3o Grupo de Artilharia Costeira sediado no Forte de Itaipú em Santos, unidade que aderiu ao movimento revolucionário. Mas qual seria a relação entre a guarnição do Forte de Itaipú com o Trem Blindado? Encontrei a resposta neste trecho de uma entrevista com o Capitão Gino Struffaldi, que serviu na guarnição do forte: "Nossa unidade mandou quatro canhões para a frente de batalha e armou com outro canhão um trem blindado construído pelos paulistas. Cada canhão saía com cinco ou seis homens, armados de fuzis, o que deixou a guarnição desfalcada."
"Este Forte muitos serviços prestou ao governo revolucionário de São Paulo, por ocasião da Revolução Paulista de 32, guardando a barra santista vigilantemente, a ponto de atingir um dos vasos de guerra federais que se aproximava demasiadamente da Ponta Grossa."
Desta forma é possível explicar as duas inscrições no casco do capacete, de um soldado que inicou sua participação em 1932 no 3o G.A.C. fazendo parte da guarnição do Forte de Itaipú e depois acompanhou o canhão Krupp de 75mm até o Trem Blindado (TB6) aonde serviu em diversas localidades nas quais o TB6, também conhecido como Fantasma da Morte, atuou durante as batalhas: Lorena, Canas, Piquete, Vila Queimada...o que pode ser comprovado pelas marcações visíveis no que restou da carneira de couro.

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Abaixo o TB6 estacionado em Vila Queimada.

Photobucket

Todas estas passagens transformam o capacete em uma peça bastante histórica e que fez parte de algumas das mais célebres passagens da guerra como a do dia 17 de Setembro entre Canas e Lorena: Pesadas cargas de artilharia antecedem a luta em Canas. O Destacamento Teófilo dispara os últimos cartuchos e se desloca para Lorena, esta é evacuada durante a tarde e a retirada das tropas paulistas é coberta pelo Trem Blindado e por elementos do Batalhão Saldanha da Gama.
"Dois carros: Um de cada lado da máquina, tudo de aço e com pinturas futuristas...Á frente, um canhão 75, pelos flancos, metralhadoras pesadas. Ao alto dois potentes holofotes...iluminando as trincheiras adversárias" (Samuel Bacarat)
Photobucket

Para saber mais sobre o Forte de Itaipú, acesse este link.

7 comentários:

  1. Ricardo,

    no capacete parece estar marcado Túnel também, isso diria que ele lutou no Túnel?

    Estranho esse fato, pois o trem blindado em questão tendo operado em Vila Queimada, Lorena, etc, seria de bitola larga para rodar na linha da EFCB, enquanto no túnel a bitola é estreita.

    T+

    ResponderExcluir
  2. Prezado BCS,

    As marcações que estão no capacete apenas nos dão um indício da história e trajetória do soldado que o usou em combate. No meu texto eu apresento uma lógica que justificaria as inscrições da peça.
    Certamente o TB6 não passou pelos trilhos do Túnel, nenhum TB o fez - mas isso não impede o soldado ter passado pelo setor, o que para ele deve ter valido a recordação desta passagem.
    Marcações em capacetes ou outros objetos não são uma Fé de Ofício militar e sim uma forma que muitos combatentes usaram para eternizar suas lembranças da guerra.
    Um abraço,

    ResponderExcluir
  3. Obrigado Ricardo,

    é bem provável que tenha passado, estava "do lado" do túnel quando lutava nessa região.

    Foi bem interessante esse post e nunca tinha imagino que tinha existido um TB nessa região.

    ResponderExcluir
  4. Adorei o capacete e a história agregada. Essas pesquisas deveriam estar em um livro, Ricardo.
    Um abraço do Raul.

    ResponderExcluir
  5. gonçalo ...........23 de julho de 2011 11:34

    Ola Ricardo, este capacete e um resumo da historia deste COMBATENTE, e muito emocionante..

    ResponderExcluir
  6. Carlos Vasconcelos24 de julho de 2011 11:51

    Emocionante que o combatente, ao escrever o que escreveu, registrou para a História, muito mais do que para si mesmo, os lugares por onde onde combateu.

    Consciente ou inconscientemente, escreveu para a História.

    Algo como:

    Remetente: Soldado Paulista.
    Destinatário: História.

    ResponderExcluir
  7. Orgulho de ser Paulista e ser do Vale do Paraíba onde boa parte da Revolução de 32 se desenrolou. O levante Paulista pelos heróis revolucionário que lutaram por ideais nos deram a chance de ter o Estado que São Paulo é hoje.

    ResponderExcluir