segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Medalhas brasileiras da Guerra do Paraguai - Parte I

Tenho recebido algumas mensagens e emails de leitores me incentivando a falar um pouco mais sobre a Guerra do Paraguai, este fascinante e quase esquecido episódio da nossa história. Já publiquei algumas breves matérias sobre os Voluntários Paulistas, sobre a Ordem da Rosa, a Batalha Naval do Riachuelo e sobre a Medalha de Bravura instituída durante este conflito. No intuíto de atender a estes leitores, pretendo aos poucos apresentar algumas das medalhas brasileiras criadas durante este longo e penoso conflito.

Para isso vou me valer do estudo de Francisco Marques dos Santos, grande mestre historiador e colecionador que deixou um legado impressionante a respeito da nossa medalhística. É dele a frase a seguir:
"Nosso enthusiasmo em colleccionar medalhas militares não consiste na posse de frios discos de metal. Ellas transcendem! Têm a grandeza dos monumentos de praça publica. Evocam-nos os surtos de bravura dos patriotas."

Medalha do Forte de Coimbra, Decreto 3492 de 8 de Julho de 1865.

Pelo Sul do Mato Grosso começou a invasão paraguaia. O Forte de Coimbra era a chave da Província e nenhum navio poderia subir o Rio Paraguai sem dar combate e vencê-lo.
A Divisão Barrios atacou o Forte de 26 a 28 de dezembro de 1864, sendo repelida por sua guarnição e auxiliada pelo navio "Anhambahy", nosso único navio artilhado na área. O Forte de Coimbra estava guarnecido por 10 oficiais, 99 praças, 10 índios, 4 vigias da alfândega, 4 civis e 17 presos. O assalto paraguaio iniciou-se ao meio dia do dia 27 e durou até a noite. No dia seguinte os paraguaios que dipunham de 54 peças de artilharia em vários navios, visavam a abertura de uma brecha na muralha do Forte. Novamente a guarnição brasileira consegue se manter por mais um dia e durante a noite recompletavam a munição. Na manhã do dia 28 as muralhas do Forte amanheceram juncadas de cadáveres paraguaios. Na tarde deste mesmo dia, com a tropa exausta e isolada é feita a retirada através do "Anhambahy" e do "Jaurú" que havia subido o rio para buscar reforços. Tomar o Forte de Coimbra custou aos paraguaios cerca de 400 combatentes.

Pelo Decreto 3492, Sua Majestade o Imperador Dom Pedro II concedeu o uso de uma medalha a guarnição do Forte que durante três dias repeliram um inimigo em número superior e aos marinheiros da frotilha de Mato Grosso que participaram do combate e auxiliaram na evacuação do Forte.

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Rendição de Uruguayana, Decreto 3515 de 20 de Setembro de 1865.

A 10 de Julho de 1865, a 1 hora da tarde partiu D. Pedro II e sua comitiva no vapor "Santa Maria" rumo ao Rio Grande. Em 11 de setembro Sua Majestade Imperial chegava ao centro de operações aliadas, que estava em plena condução do cerco as tropas paraguaias em Uruguaiana. Inúmeros preparativos sendo feitos e finalmente no dia 18, antes de desencadear um ataque de grandes proporções, um emissário foi enviado até o comandante paraguaio Coronel Estigarribia propondo uma rendição sem derramamento de sangue. Estigarribia aceitou o que havia recusado dias antes, e os chefes aliados tomaram lugar ao lado de D. Pedro II para assistir o desfile dos 5.545 soldados paraguaios desarmados rumo a prisão. Solano Lopes, chefe militar que era considerado "frio e impassível" chorou ao saber da derrota paraguaia em Uruguaiana. O curso da guerra começava a mudar e os aliados levariam a guerra para o solo paraguaio.

Digno de nota é que quatro dias depois da rendição, o Imperador ainda naquela localidade, recebeu um formal pedido de desculpas do emissário da Rainha da Inglaterra, Sir Edward Thornton a respeito da Questão Christie - o que consistiu em uma importante vitória diplomática brasileira, que restabeleceu as relações diplomáticas entre Brasil e Inglaterra.

A Medalha de Uruguayana traz à lembrança estes felizes episódios que aconteceram no meio da Guerra do Paraguai e foi criada para agraciar os que estiveram presentes e tomaram parte na rendição do exército paraguaio que ocupava a Villa de Uruguayana.
A medalha antagônica a de Uruguayana é a Medalha de Matto Grosso - a medalha dolorosa da Campanha do Paraguai, que custou sangue, dor, miséria e peste aos seus detentores. Ela será assunto de uma futura postagem aqui no blog.

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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Duas fotografias antigas

Para mostrar a falta que faz uma identificação em uma fotografia antiga, apresento a seguir duas fotos diferentes. A primeira delas foi adquirida em uma feira de antiguidades e mostra o Estado Maior do Batalhão Campos Salles, com todos os militares e voluntários devidamente identificados no verso, permitindo ao pesquisador saber mais sobre a participação de cada um dos soldados durante a revolução.

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A outra imagem, infelizmente do tipo mais comum de ser encontrada, é uma belíssima fotografia de um grupo de militares em campanha com algumas araucárias (também conhecidas como Pinheiro-do-Paraná) ao fundo - árvore típica da região Sul.
Além desta indicação, não é possível sequer saber se os militares na foto são soldados paulistas ou governistas, ou mesmo se a foto é de 1930 ou de 1932. É possível ler no jornal nas mãos do Comandante parte do título "DO POVO", mas não consegui nenhuma informação de qual jornal poderia ser. Caso alguém tenha um bom palpite sobre a foto, não deixe de escrever!

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Medalha oferecida aos soldados do Paraná ao término da Revolução de 1930.

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segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Medalha nominal Batalhão Borba Gato

Hoje apresento uma peça extremamente significativa, diferente e nominal. Trata-se de uma Medalha de São Paulo oferecida pelos soldados da 2a e 3a CIA do Batalhão Borba Gato ao seu Capitão.
Além do dispositivo de fixação da medalha ser customizado, a própria medalha também chama a atenção, pois seu verso é liso sem a imagem de São Paulo.

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Abaixo o distintivo usado na lapela pelos membros deste batalhão.

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sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Monumento em Mogi-Mirim

Trago hoje aos leitores do blog, uma série de fotos tiradas pelos meus primos Aloísio Fernando Maia Ferraz Demunno e Rodrigo Demunno do monumento aos mortos na Revolução de 1932 da cidade de Mogi-Mirim, inaugurado no ano de 1982. O monumento fica numa praça na Rua Padre Roque, ao lado do estádio do Moji-Mirim Esporte Clube.

Em setembro de 1932 a região de Mogi-Mirim foi palco de inúmeros combates, inclusive sofrendo bombardeios aéreos de aviões da ditaura. No dia 20 de setembro a aviação paulista destrói cinco aviões da ditaura pousados na cidade causando inúmeras baixas. Em agosto a batalha do Morro do Gravi na estrada entre Mogi-Itapira causa dezenas de baixas paulistas.

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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Hino da Proclamação da República

Em comemoração a data de hoje, trago aos leitores o hino que considero ser o mais belo que temos. Com letra de Medeiros e Albuquerque (1867-1934) e música de Leopoldo Miguez (1850-1902) o Hino da Proclamação da República foi concebido para ser um dos concorrentes do concurso de 1889 para a escolha do novo Hino Nacional. Porém por conta do apelo do povo que já tinha o hino antigo no coração (sentimento cuja Guerra do Paraguai ajudou a solidificar) a composição de Lepoldo Miguez acabou se tornando o Hino da Proclamação da República, sendo oficialmente publicado no Diário Oficial de 21 de Janeiro de 1890.

No quadro de vídeo abaixo temos a imagem da bandeira que foi usada provisoriamente como Bandeira Nacional, de 15 a 19 de novembro de 1889. Esta bandeira foi hasteada no Encouraçado "Riachuelo" e no Paquete "Alagoas", temporariamente incorporado à Esquadra - que conduziram a Família Imperial ao exílio na Europa. Clique no botão no centro da imagem para ouvir o hino.



Seja um pálio de luz desdobrado,
Sob a larga amplidão destes céus
Este canto rebel que o passado
Vem remir dos mais torpes labéus.
Seja um hino de glória que fale,
De esperança de um novo porvir,
Com visões de triunfos embale
Quem por ele lutando surgir.

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas, na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

Nós nem cremos que escravos outrora,
Tenha havido em tão nobre país
Hoje o rubro lampejo da aurora,
Acha irmãos, não tiranos hostis.
Somos todos iguais, ao futuro
Saberemos unidos levar,
Nosso augusto estandarte, que puro,
Brilha ovante, da Pátria no altar.

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas, na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

Se é mister que de peitos valentes,
Haja sangue em nosso pendão,
Sangue vivo do herói Tiradentes,
Batizou este audaz pavilhão.
Mensageiro de paz, paz queremos,
É de amor nossa força e poder
Mas da guerra nos transes supremos,
Heis de ver-nos lutar e vencer.

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas, na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

Do Ipiranga é preciso que o brado,
Seja um grito soberbo de fé,
O Brasil já surgiu libertado,
Sobre as púrpuras régias de pé.
Eia pois, brasileiros, avante!
Verde louros colhamos louçãos,
Seja o nosso país triunfante,
Livre terra de livres irmãos!

Liberdade! Liberdade!
Abre as asas sobre nós
Das lutas, na tempestade
Dá que ouçamos tua voz.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Marmita velha é que faz comida boa

Trago hoje um artefato que pertenceu ao meu avô Manoel Maia Neto e que chegou até minhas mãos através das minhas primas Marina de Campos Maia e Maria Elisa de Campos Maia. Trata-se de uma marmita de campanha usada durante a revolução de 1932. Este era o utensílio usado para a alimentação das tropas entrincheiradas nas frentes de combate. A cozinha de campanha ficava na retaguarda e alguns valentes soldados abasteciam as marmitas e as distribuíam para os soldados em postos avançados, que sempre comemoravam sua chegada.

Este exemplar esteve no setor de Vila Queimada (vilarejo entre Lavrinhas e Queluz, as margens do que é hoje a Rodovia Presidente Dutra) e provavelmente passeou pelas trincheiras do Morro Verde, Morro da Pedreira, Vala Suja...sendo trazido de volta pelo meu avô, guardado pelo meu tio, descoberto por minhas primas e apresentado para vocês aqui no blog!

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Soldados paulistas na hora da bóia, usando um modelo similar de marmita.

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"À nossa frente, lá adiante, Lavrinhas nos esperava para nova série de argruras. Atrás de nós, Vila Queimada ao abandono. Quase destruídas as suas velhas habitações. Os seus morros queimados pelo incêndio das granadas. Os vales enegrecidos pelo fogo eram como bôcas desdentadas gritando contra a maldade capaz de inventar uma manhã daquelas. Mais adiante na derradeira oração do Morro Verde, pedindo a primavera de Paz entre os homens de boa vontade.
Mas os homens eram de má vontade..."
Palmares pelo avesso, Paulo Duarte.
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Cartões postais enviados dos campos de batalha na frente de Queluz/Vale do Paraíba.

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domingo, 6 de novembro de 2011

Ex-Libris do jornal O Estado de São Paulo em 1932

Tive recentemente a alegria de receber do escritor Paulo Rezzutti um jogo com os três Ex-Libris do jornal O Estado de São Paulo desenhados por José Wasth Rodrigues para angariar fundos para os órfãos e viúvas da causa constitucionalista. Reproduzo abaixo uma matéria escrita pelo próprio Paulo sobre estes raros Ex-Libris e postada originalmente em seu blog.

Paulo Rezzutti, um apaixonado pela história de São Paulo é o autor do livro Titila e o Demonão - Cartas inéditas de D. Pedro I a Marquesa de Santos, leitura deliciosa e obrigatória para os amantes da História do Brasil.

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Durante a Revolução Paulista de 1932, o jornal “O Estado de São Paulo” lançou uma campanha inusitada para levantar fundos para os órfãos e viúvas da causa constitucionalista: leilões de livros através de suas páginas.

A campanha funcionava da seguinte maneira: Os doadores enviavam os livros para o jornal, pessoalmente, pelo correio, ou ainda, para os que moravam no interior, por meio do Comando Revolucionário de sua cidade.
Cada livro recebia um código numérico, e uma listagem das obras era publicada numa seção especial do jornal. Os interessados pelos títulos anotavam o código do livro desejado e mandavam os lances por carta, ou deixavam um bilhete na portaria do jornal. Arrematava a obra quem desse o maior valor. Não raro, os livros doados já seguiam com um lance inicial do próprio ofertante.

Examinando as ofertas, podemos ver um acervo bastante variado. O arroz de festa, ofertado em quase todos os leilões, era a coleção “Thesouro da Juventude”. Mas também foram leiloadas obras raras, como primeiras edições dos Padres Antonio Vieira e Manoel Bernardes, um “Os Sertões” autografado por Euclides da Cunha e obras raras francesas em primeira tiragem de Voltaire, Rousseau, Montesquieu, entre outros.

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Algumas cartas que acompanhavam os livros eram assinadas por seus doadores, como os escritores Paulo Setúbal e Cassiano Ricardo, o Cônsul da Lituânia em São Paulo, “pelos jovens” e “pelas jovens” paulistas, cujos pais certamente ditaram os bilhetes de doação – escritas em corretíssimo português por mãos ainda não muito acostumadas a pegar em um lápis. Outras eram subscritas por: “Um Patriota”, “Paulista Consciente” e diversos outros pseudônimos.

O jornal contratou o pintor José Wasth Rodrigues para confeccionar o ex libris dessa campanha. Quem arrematasse uma das obras podia mandar uma carta para a redação, com um envelope já selado para resposta, informando qual livro havia adquirido. O responsável pelo setor enviava o ex libris correspondente dentro do envelope recebido.

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Os ex libris foram confeccionados em três tamanhos: 5 cm X 9,4 cm, 7,4 cm X 12,5 cm e 11,4 cm X 19,4 cm, cada um relativo a um tamanho de livro: in-oitavo, in-quarto e in-fólio. Na margem superior, lê-se em letras pretas a frase: “LIVRO DOADO EM BENEFÍCIO / DOS ORPHAMS DA REVOLUÇÃO”. Na margem inferior, os dizeres: “POR INTERMÉDIO DO / O ESTADO DE S. PAULO / Nº…………..” No centro do ex libris, um retângulo amarelo tendo, desenhado em preto, um garoto de pé, vestido com uniforme de marinheiro, com um espadim de um lado da cintura e do outro um tambor, que segura com a mão direita um mastro feito com bambu. Amarrado na ponta do mastro, um pedaço de pano esvoaça por cima do menino; nele constam os seguintes dizeres: “SI FOR PRECISO / NÓS TAMBÉM / VAMOS!”. Na lateral esquerda do garoto, ainda dentro do campo amarelo, a inscrição: “EX- / LIBRIS”.

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José Wasth Rodrigues é também o autor do célebre Ex-Libris do jornal O Estado de São Paulo.
O ex-libris tomado como logo prestava uma homenagem ao primeiro jornaleiro paulistano, o francês Bernard Gregoire, que em 1876 passou a andar vagarosamente com o seu cavalo pelas estreitas ruas de São Paulo de Piratininga, tocando sua corneta e anunciando a venda da edição do dia de “A Província de São Paulo”, por 40 réis. O jornal “A Província” viria, anos mais tarde a se transformar em “O Estado de São Paulo”.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

O caso Ruytemberg Rocha

Aqui neste blog tratamos de personagens e objetos do passado, e estes assuntos antigos tem sempre uma aura de mistério ao seu redor. Quem não se interessa pelo sobrenatural? Confesso que o comentário do Sr. Jose Vacir Cogo sobre um pelotão fantasma vagando nas antigas trincheiras de Jacutinga, mencionado no post abaixo deste, me inspirou a montar esta postagem sobre o caso Ruytemberg Rocha - um combatente de 32 que não sabia que estava morto.

As informações abaixo foram extraídas da monografia do pesquisador Hernani Guimarães Andrade, publicada em 1971. Deixando qualquer tipo de julgamento de lado, trata-se de um caso verdadeiramente interessante.

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No dia 6 de novembro de 1961, às 2Oh e 3Omin, na Rua Guararapes 779, no Alto da Lapa, cidade de São Paulo, efetuava-se costumeira sessão espírita. Achavam-se presentes as seguintes pessoas: Dr.Alfredo Castro, médico, em cuja casa se realizava a sessão; D.Maria Aidê Castro, esposa do Dr.A.Castro; Dr.Waltencir Linhares,médico; D.Yvette Schwindt Linhares, esposa do Dr.W. Linhares; Sr. Sérgio dos Santos Penna, assistente social; D.Marina Schwindt dos Santos Penna, esposa do Sr.Sérgio S.Penna; D. Anunciata Guaraldo, já falecida; Sr.Léo Weinstock, comerciante, esposo de D. Vitúlia (Túlia); D. Vitúlia Weinstock (Túlia), a "médium".

Iniciados os trabalhos da sessão, na forma típica dos grupos dessa natureza, e após alguns minutos de concentração, a médium, D. Túlia, começou a manifestar os sinais característicos de um transe. Logo a seguir, aparentemente inconsciente, passou a dar indícios de sofrimento, gemendo e soluçando. O dirigente dos trabalhos, Dr.Alfredo Castro, interrogou a médium, em transe, presumindo que uma outra "personalidade" se achasse ali presente utilizando a sensitiva como meio de comunicação com os assistentes da sessão. A referida personalidade informou então, o seguinte:

a) que se chamava RUYTEMBERG ROCHA;
b) que era aluno do 2o ano da Escola de Oficiais da Força Pública do Estado de São Paulo;
c) que fora incorporado ao "Batalhão Marcílio Franco”, em atividade na frente de Buri durante as operações militares da Revolução Constitucionalista;
d) que fora ferido por um estilhaço de granada, dizendo sentir muita dor na região supraclavicular esquerda (ou no peito, à esquerda), local este onde a "médium" em transe manteve a mão espalmada durante quase toda a sessão;
e) que fora trazido ao local da sessão pelo seu pai e por alguns amigos;
f)que nascera em São João da Bocaina, Estado de São Paulo, em 1908, (hoje denominado Bocaina, apenas);
g) que seu pai chamava-se OZÓRIO ROCHA;
h) que sua mãe chamava-se JULIETA SIMÕES, pronunciando seu apelido familiar (infelizmente,esquecido pelas testemunhas, algumas das quais sugerem seja "Lilita");
i) que tinha uma irmã, cujo nome declinou na ocasião, mas do qual as testemunhas não se recordam mais, por não o haverem anotado. Faz exceção D. Marina, que lembra ter sido OLINDA o nome dado por Ruytemberg Rocha.
"Chamo-me Ruytemberg Rocha, sou aluno do 2o ano da Escola de oficiais da Força Pública do Estado de São Paulo e incorporado como 2o Tenente ao Batalhão Marcílio Franco. Nasci em 1908, em São José da Bocaina; meu pai chama-se Osório Rocha e minha mãe Julieta Simões. Tenho uma irmã que se chama Olinda.
Estou aqui, trazido por meu pai e alguns amigos. Meu pai foi me buscar no campo de batalha onde fui atingido por estilhaço de granada. Sou combatente na frente de Buri.”
Houve uma pequena pausa e o dirigente da mesa lhe perguntou:
-“Quando meu amigo foi para o campo de batalha,seu pai era falecido?” -“Não!”, respondeu a entidade, muito surpresa. Começou, então, o trabalho natural de doutrinação e quando a entidade tomou conhecimento de sua situação espantou-se, pois até então não sabia que havia morrido, e perguntou: “Em que ano nós estamos?” -“Em 1961”, respondeu~lhe o dirigente da mesa. -“Já!!! Mas não é possível. Quase 30 anos!”
-“Então o que aconteceu comigo!?, exclama admirada a entidade.”E minha mãe, onde está? “E minha irmã? Tanto a queria!”
Depois de consolada e confortada pelo dirigente dos trabalhos, que esclareceu à entidade a sua condição como pertencente ao mundo dos espíritos, houve como que um alívio, uma calma, um bem estar próprio a quem procura e encontrou uma solução para seus problemas. Concordou com certa satisfação em se afastar em companhia de nossos amigos do espaço. Fizemos uma prece para encerrar os trabalhos dessa noite e o resto transcorreu normalmente.
A partir deste impressionante episódio, o autor da monografia relata a pesquisa realizada para atestar a veracidade dos fatos e se havia alguma possibilidade dos presentes naquela sessão espírita ter algum prévio conhecimento acerca da história de Ruytemberg Rocha. Lembrem-se que o ocorrido deu-se em 1961 e que na época a obtenção de informações sobre a Revolução Constitucionalista dava-se de maneira bem diferente, sem as facilidades do compartilhamento do conhecimento que hoje temos à nossa disposição. Abaixo trago alguns aspectos interessantes desta pesquisa. No parágrafo abaixo um dos participantes relata a primeira pesquisa sobre a veracidade das informações obtidas durante a sessão mediúnica.
No dia 11 de novembro de 1961, no primeiro sábado após a reunião, aproveitamos a manhã livre para irmos até o bairro da Cantareira, nesta capital, onde está localizada a Escola Preparatória de Oficiais da Força Pública, escola esta que dizia ter pertencido a entidade manifestante de nome Ruytemberg Rocha, como aluno oficial do 2o ano. Ali chegando, solicitamos a presença do oficial do dia, sem a ordem do qual não poderíamos iniciar a nossa visita, que era a de obter dados e informações sobre ex-alunos, combatentes de 1932, desse colégio militar, já falecidos. Responde-nos o oficial: -"isto para nós é fácil, pois se tratando de nossos heróis da revolução, temos tudo arquivado. Segundo diz, informações sobre quem?” Quando lhe falamos que desejávamos saber algo sobre o tenente Ruytemberg Rocha, ele abriu largo sorriso, e estendendo os braços disse: "Recentemente lhe prestamos uma homenagem, esta avenida principal de nossa escola tem seu nome: Tenente Ruytemberg Rocha, herói falecido em combate."
De posse da ficha tivemos o prazer deter um a um todos os dados pessoais do Tenente Ruytemberg Rocha. Todos confirmam as suas revelações. Tudo igual. Tudo certo. Nada falhara. Pedi ao Tenente Secretário, Sr.Mário de Jesus Cordeiro, uma cópia daquela ficha pessoal,o que imediatamente foi feito e assinado por ele.
O autor da monografia então relata a pesquisa acerca de publicações da época e quaisquer outras fontes que poderiam ter usadas pela "médium" para obter informações sobre o Cadete Ruytemberg:
No livro “Cruzes Paulistas”, editado pela "Campanha Pró-Monumento e Mausoléu do Soldado Paulista de 32", São Paulo, 1936, contem a maior soma de informações biográficas sobre Ruytemberg Rocha. À página 409 do referido livro, lê-se o seguinte: “RUYTEMBERG ROCHA (Força Publica) Alumno do Curso de Officiaes da Força Publica, partiu para o sector Sul, como Capitão, logo no começo da campanha. Em Bury, dia 26 de Julho, quando em combate, recebeu uma bala na cabeça, morrendo immediatamente. Foi sepultado no cemitério velho de Bury. Esse combate, um dos mais duros daquella frente, durara nada menos que dezessete horas.
Dados Biographicos - Nascera Ruytemberg em S.João da Bocaina a 19 de Janeiro de 1908, filho do Sr. Ozorio Rocha e de d. Julieta Simões Rocha. Era irmão de José Euriderval, Olinda, Ladidopeia e Servio. Era solteiro.(sic).”

Como pode ver-se, aquela página do referido livro contém grande parte das informações prestadas pela médium em transe. Todavia, falta o "apelido" da mãe. Além disso, a informação dada pela médium discrepa em algum pontos.

O Livro “Cruzes Paulistas” é um grosso volume, de 516 páginas, contendo 633 pequenas biografias de participantes ativos falecidos na Revolução de 1932. Foi editado, em 1936, com o objetivo de angariar fundos para a construção do "Monumento e Mausoléu ao Soldado Paulista de 32". Desta primeira e única edição foram feitos 100 (cem) exemplares em papel de linho, 500 (quinhentos) em papel "bouffon" e 2000 (dois mil) em papel acetinado; ao todo, 2600 (dois mil e seiscentos) exemplares. Nem todos foram vendidos, restando, ainda, muitos em estoque. O exemplar que adquirimos, em papel "bouffon", tem o número 154; data de compra: 13/08/1970.
Esse livro é pouco conhecido atualmente, bem como as outras obras congêneres lançadas naquela ocasião. A maior parte das consultas feitas sobre tal bibliografia foi conseguida nos arquivos da "Sociedade Veteranos de 1932 - M.M.D.C.", na Rua Anita Garibaldi n9 25, São Paulo, e na Biblioteca Municipal de São Paulo. Os livros sobre a Revolução de 1932, especialmente os editados à época, já não se encontram facilmente nas livrarias. O exemplar de Cruzes Paulistas foi por nós obtido na sede da "Sociedade Veteranos de 32 - M.M.D.C."
Depoimento do CEL Alfredo Guedes De Souza Figueira em 28 de agosto de 1970:
O Cel. Alfredo Guedes relatou-nos o seguinte:
-Eram quatro os alunos da Escola de Oficiais da Força Pública que foram incorporados ao "Batalhão Marcílio Franco": Ruytemberg Rocha, Walter Greenen, Antônio Alembert e Alfredo Guedes de S. Figueira (o declarante). No Batalhão Marcílio Franco todos tinham, oficiosa mente, o posto de Capitão, embora não fosse este o posto real que possuíam na Força Pública. Achavam-se em pleno combate no cemitério da cidade de Buri, Estado de São Paulo. Na ocasião, como a munição estivesse escasseando, o então Cap. Alfredo Guedes dirigiu-se a Ruytemberg Rocha e propos-lhe que se fosse buscar mais munição. Ficou resolvido que o próprio Cap. Alfredo Guedes iria providenciar a munição, ficando Ruytemberg Rocha na trincheira, garantindo aquela posição com seus comandados. Ao regressar com o material, o Cap. Alfredo Guedes encontrou, no trajeto de volta, um caminhão que transportava para a retaguarda o cadáver de Ruytemberg Rocha, há pouco morto em a combate.
O Cap. Alfredo Guedes, subindo na carroceria do veículo, pode ver o corpo de Ruytemberg Rocha com ferimento ao nível do frontal (centro da testa). Na ocasião tirou-lhe o coldre a tira-colo, já sem o revólver, e guardou-o como lembrança do companheiro. Posteriormente, ofereceu-o ao Museu da Força Pública. O Cel. Alfredo Guedes afirmou que a “causa mortis” de Ruytemberg Rocha fora um tiro na cabeça. Inquirido sobre se conhecera ou tivera relações pessoais com as testemunhas do caso (sessão), afirmou jamais ter visto ou conhecido tais pessoas.
Pesquisa na Sociedade Veteranos de 32 M.M.D.C:
No dia 13 de agosto de 1970,fizemos nosso primeiro contato com o Cap. Francisco Molinari, presidente da "Sociedade Veteranos de 32 MMDC", na Rua Anita Garibaldi, 25 em São Paulo. Na mesma ocasião, ficamos conhecendo o Tenente Geraldo Norberto Freire, Diretor de Exumação e Transladações da mesma Sociedade.
Ambos esses oficiais mostraram vivo interesse pelo Caso de Ruytemberg Rocha e, gentilmente, proporcionaram-nos todas as facilidades para a pesquisa dos dados referentes à questão. Graças ao Cap. Francisco Molinari e ao Tenente G. N. Freire foi possível realizar parte do levantamento bibliográfico e obter orientação para a busca nos jornais, pois a Sociedade conta com excelente arquivo de recortes de notícias sobre a Revolução de 1932.
Inquiridos sobre a eventualidade de conhecerem as pessoas ligadas ao caso(sessão) Ruytemberg Rocha, e após verem as fotografias que lhes apresentamos, declararam que jamais viram nem ali estiveram quaisquer dos participantes da referida sessão. Afirmaram-nos, ainda, que ninguém, até então, houvera procurado os arquivos da Sociedade com o intuito de obter informes sobre Ruytemberg Rocha. Ambos ocupam os cargos há muitos anos e nunca ouviram, da parte dos funcionários da Sociedade, quaisquer alusões a uma pesquisa biográfica sobre Ruytemberg Rocha. Solicitamos informações sobre a exumação e transladação dos despojos de Ruytemberg Rocha para o Mausoléu do Soldado de 32, situado no Ibirapuera, São Paulo. O Tenente G. N. Freire exibiu-nos a documentação referente ao ato. A autorização para a transladação dos restos mortais de Ruytemberg foi firmada pela Sra. Ricardina C. Fonseca, Presidente da "Liga das Senhoras Católicas de São Paulo", aos 8 de junho de 1963. 0 ato da exumação ocorreu no dia 8 de julho de 1963, às 12 horas, no "Cemitério São Paulo", sob a responsabilidade do Sr. Jarbas Araújo, auxiliado pelo Sr. Paulo Affonso Aquillini. A cerimônia religiosa da encomendarão foi realizada pelo Capelão da FAB., Cônego Pedro Gomes. Tais cerimônias ocorreram, portanto, após a data da sessão em que se deu a aludida comunicação através de D. Túlia.
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Na conclusão do seu trabalho o pesquisador sugere as seguintes questões:
a) Como e por quê a médium focalizou, em 1961, justamente Ruytemberg Rocha, falecido em 1932, bem como as fontes correlatas de informação a seu respeito?
b) Por quê a "causa mortis”, inclusive sua característica dramatização, não concorda com das fontes informativas, bem assim com o conhecimento daqueles que testemunharam a morte de Ruytemberg e que o viram com o ferimento a bala, ao nível do frontal ?
c) Como e por quê a médium registrou o apelido familiar da mãe de Ruytemberg (Julita), distinguindo-o do nome que geralmente figura no livro Cruzes Paulistas, nos registros da Academia Militar da Força Pública e no noticiário de "0 Estado de S.Paulo", de 10/7/937, pág. 12?
d) Como e por que a médium conseguiu informar o posto verdadeiro de Ruytemberg, quando ainda vivo, se a maioria das fontes informativas davam-no como Capitão?
e) Como pode a médium distinguir, entre todos os irmãos, o nome da irmã que era mais chegada a Ruytemberg, uma vez que OLINDA já era falecida em 1961, por ocasião da sessão? (No depoimento gravado do Sr. José Garcia S. Rocha, irmão de Ruytemberg, ele declarou que, realmente, OLINDA era a irmã mais ligada a Ruytemberg. Olinda faleceu dois anos após Ruytemberg, isto é, em 1934)

Ruytemberg só foi efetivamente promovido a Capitão muito tempo depois de sua morte. Ele era Aluno Oficial do 2o ano da Escola de Oficiais, quando se incorporou ao Batalhão Marcílio Franco. Logo, só poderia ter dado esta informação, a qual independe das cinco fontes dadas à publicidade, após sua morte. O livro “Cruzes Paulistas menciona "aluno do Curso de Oficiais da Força Pública", mas dá seu posto como sendo Capitão; não menciona o Batalhão Marcílio Franco.

Realmente, Ruytemberg foi morto por uma bala que o atingiu na fronte. Este é o fato. Qual teria sido a última sensação de Ruytemberg, devida ao impacto violento do projétil que lhe perfurou o crânio? Certamente, foi a de um estrondo, seguido de clarão, pois as concussões na cabeça produzem esse efeito. A bala, ao penetrar-lhe a caixa craniana, teria excitado o centro da sensibilidade correspondente à região onde sentiu a dor. Em frações de segundo, que lhe precederam a morte, Ruytemberg teria interpretado o fato como a explosão de uma granada, cujos estilhaços o teriam atingido na região correspondente à parte cerebral excitada. Esta seria, a nosso ver, a explicação para a discrepância assinalada.
É interessante ressaltar o fato de que o setor de Buri foi um dos mais castigados por bombardeios de canhão. Tal peculiaridade daquela frente de combate é particularmente conhecida dos ex-combatentes da Revolução Paulista de 1932. Desse modo, é natural que os soldados do "front" de Buri se mostrassem preocupados com os estilhaços de granada. Ao receber o impacto do projétil na testa, seria bem normal que Ruytemberg Rocha houvesse interpretado, segundos antes de morrer, como sendo um estampido de granada. Ao sentir a dor na região correspondente à zona cerebral excitada, teria concluído que fora atingido por um estilhaço de granada ao nível do peito.

O presente caso, embora comporte explicações ou normais ou baseadas na percepção extra-sensorial, apresenta evidências que sugerem a manifestação de um agente desencarnado, através de uma médium. As características da comunicação colocam-na na categoria do tipo "drop in", isto é, o comunicador é inteiramente desconhecido da médium e dos assistentes da sessão. O autor, sem querer desmerecer as outras interpretações, opta pela última, por lhe parecer mais adequada ao caso.

Os restos mortais do Cadete Ruytemberg Rocha encontram-se no Mausoléu do Ibirapuera.

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Para saber mais a respeito deste caso, recomendo a leitura da íntegra da monogarfia de Hernani Guimarães de Andrade, O Caso Ruytemberg Rocha (1a. Edição 1971), que pode ser encontrada em alguns sebos.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Comentários dos leitores

O blog tem contado com a importante participação dos leitores que deixam vários comentários pelos mais de 200 posts já publicados, além das inúmeras mensagens recebidas por email. Nem sempre consigo agradecer ou responder cada um individualmente, mas todos são lidos sem exceção.

Gostaria de destacar e agradecer a participação e comentários do Jose Vacir Cogo, que deixou um interessante depoimento no post sobre Eleutério neste link; do Sr. Gonçalo; do Yuri Abyaza Costa (neto do General Miguel Costa); do Marcus de Jaú; da Dona Orivalda Diana (filha do Sr. Oswaldo Diana), do João Marcos Carvalho, do Ralph Giesbrecht, do CEL PM Mario Ventura e de tantos outros que escrevem e colaboram com frequência! Muito obrigado pelas visitas ao blog! Vamos em frente!

Abraço,
Ricardo