quinta-feira, 23 de maio de 2013

23 de maio 1932

Que nos seja estímulo a saudosa lembrança dos bravos que tombaram na luta, regando com seu sangue generoso o solo da terra que Deus quer grande. Sobra ainda no coração de muitos, o culto de uma saudade – que é respeito, que é ternura, que é esperança, que é ideal.  São Paulo, rogai por eles e por nós!

23 de maio de 2013.
Manet immota fides.

 photo CARTAZ23MAIO_zpsfbeb2989.jpg

O mês de maio daquele ano de 1932 já tinha se iniciado com muita tensão no ar: Greves, comícios, articulações políticas e militares iam aos poucos dando forma ao movimento revolucionário. Vargas por sua vez, acenava com a Assembléia Constituinte apenas para o ano seguinte, causando indignação e descontentamento entre os paulistas.
No dia 13 de maio outro grande comício na Praça da Sé reúne comerciantes, estudantes, entidades de classe e políticos que exigem eleições imediatas além de um secretariado verdadeiramente paulista.

Photobucket

Porém, foi no dia 22 que o pavio foi definitivamente aceso com a chegada de Osvaldo Aranha a mando de Vargas com o intuíto de mediar a questão do secretariado. Com o apoio da imprensa, os frentistas alardeiam que a real intenção de Aranha é não outra a não ser dividir a Frente Única. Este, que já não tinha a simpatia dos paulistas chega a cidade como um verdadeiro intruso.

Photobucket

De um lado, a Legião Revolucionária (força paramilitar comandanda por Miguel Costa que apoiava a ditadura Vargas) que planejava receber Osvaldo Aranha com todas as honras. Do outro lado a massa paulista que cerca, vaia e hostiliza o emissário de Vargas por todo o seu caminho. Durante a tarde uma carga de cavalaria da Força Pública é lançada contra os protestantes na Avenida Tiradentes, mas logo a situação se acalma com o pedido de desculpas e a garantia que não haveria mais repressão aos manifestantes - vindos do Comandante em Exercício da Força Pública Cel. Elisário de Paiva.

Photobucket

Photobucket

Na manhã do dia 23 de Maio, Miguel Costa é definitivamente afastado do comando da Força Pública e em seu lugar é nomeado um aliado da Frente Única, o Coronel Júlio Marcondes Salgado. Osvaldo Aranha, que tinha passado a noite abrigado no Quartel General do Exército, retorna ao Rio de Janeiro totalmente alarmado com a situação em São Paulo. Durante essa tarde jornais tenentistas são invadidos pela multidão que toma as ruas enquanto lojas de armas são saqueadas. Pequenos choques contra provocadores da Legião Revolucionária acontecem nas estreitas ruas do centro. A situação se agrava a cada minuto.
Sangue paulista será derramado.

A Batalha da Praça da República:


No final da tarde daquela segunda-feira de maio, os paulistas já não queriam mais os membros da Legião Revolucionária andando com seus lenços vermelhos, armados, mandando e desmandando na cidade. Havia chegado a hora de colocar um ponto final naquele verdadeiro abuso que São Paulo estava sofrendo. A multidão paulista estava decidida a protestar na sede da Legião Revolucionária. Encontraram legionários armados e dispostos a tudo. Inclusive a matar.

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Photobucket

No início da noite a massa indomável se dirige pela Rua Barão de Itapetininga e finalmente alcança a esquina da Praça da República. Ali funciona a sede do Partido Popular Paulista, braço político da Legião Revolucionária. No seu interior, legionários frustrados com a deposição de seu chefe, armados e dispostos a tudo pretendem defender a sede do partido custe o que custar.

A massa se divide entre as esquinas da Rua Dom José de Barros e a Praça da República. Quem entrasse pela Barão de Itapetininga virava alvo dos legionários entocados. No primeiro ataque tombam Euclides Miragaia, estudante de direito e Antonio de Camargo Andrade, além de inúmeros feridos.

Photobucket

A foto abaixo, originalmente veiculada nos anos 50, é tida como a última imagem em vida dos Mártires da Revolução.

Photobucket

Das janelas no alto do prédio situado na esquina da Rua Barão de Itapetininga com a Praça da República tem-se uma ampla visão destas duas ruas. Foi dali que os membros da Legião Revolucionária controlaram a tiros o avanço da multidão logo abaixo. Era possível alvejar alvos tanto na Rua Barão de Itapetininga, como na Praça da República.

Photobucket

Photobucket

Do quarto andar são disparadas rajadas de armas automáticas.

Photobucket

Os que estão na rua se abrigam.

Photobucket

Pânico e correria na calçada da Praça da República.

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Um bonde é tomado pelos manifestantes e ao apontar na esquina é crivado de balas vindas de cima. A rajada atinge o estudante Mário Martins de Almeida que virá a falecer no pronto socorro da Polícia Central. São mais de quatro horas de tiroteio, quando no início da madrugada um destacamento da Força Pública negocia a rendição de oito atiradores enquanto a massa é mantida afastada. No chão jaz o garoto de quatorze anos Dráusio Marcondes de Souza. Ferido gravemente está Orlando de Oliveira Alvarenga - que falecerá no dia 12 de agosto. Os ocupantes do PPP são retirados em um caminhão pela Força Pública e levados dali - nunca seriam identificados os autores dos tiros que vitimaram os cinco jovens.

Uma imagem da sede do PPP após o violento combate, e atualmente no mesmo local uma moderna sala de reuniões.

Photobucket

Photobucket

Photobucket

No dia 24 de maio, as iniciais dos nomes dos mortos formarão a sigla da sociedade secreta que traçará o destino do Revolução Constitucionalista: MMDC. Anos depois a história faria justiça a Alvarenga, e a sigla seria complementada formando MMDCA.

Photobucket

Photobucket

Photobucket

Mario Martins de Almeida

Nasceu em São Manuel, no Estado de São Paulo no dia 08 de fevereiro de 1901.
Filho do Coronel Juliano Martins de Almeida e de Dona Francisca Alves de Almeida.
Foi estudante do Mackenzie College, tendo terminado seus estudos sob a direção do Professor Alberto Kullmann. Era fazendeiro em Sertãozinho, estando no dia 23 de Maio de 1932 de passagem em São Paulo em visita a seus pais.

Euclydes Bueno Miragaia
Nasceu em São José dos Campos no dia 21 de Abril de 1911. Era filho do Sr. José Miragaia e de Dona Emília Bueno Miragaia. Foi aluno da Escola de Comércio Carlos de Carvalho, de onde passou no terceiro ano para a Escola Alvares Penteado. No dia 23 de Maio estava no centro a serviço de um cartório.

Drausio Marcondes de Souza
Nasceu a Rua Bresser na cidade de São Paulo em 22 de Setembro de 1917.
Filho do Sr. Manuel Octaviano Marcondes, farmacêutico e de Dona Ottilia Moreira da Costa Marcondes.

Antonio Americo de Camargo Andrade
Nasceu no dia 03 de Dezembro de 1901, filho do Sr. Nabor de Camargo Andrade e de Dona Hermelinda Nogueira de Camargo. Era casado com Dona Inaiah Teixeira de Camargo e deixou três filhos: Clesio, Yara e Hermelinda.

Orlando de Oliveira Alvarenga
Nasceu em Muzambinho, Minas Gerais, no dia 18 de Dezembro de 1899. Filho do Sr. Ozorio Alvarenga e de Dona Maria Oliveira Alvarenga. Deixou viúva Dona Annita do Val e um filho de nome Oscar. Era escrevente juramentado, e faleceu no dia 12 de Agosto de 1932 vítima dos ferimentos do dia 23.

No Mausoléu do Ibirapuera o "Herói Jacente" abriga os despojos das primeiras vítimas da Ditadura em 1932.

Photobucket

Photobucket

DULCE ET DECORUM EST PRO PATRIA MORI. É DOCE E BELO MORRER PELA PÁTRIA.
(Horácio, ode II, livro III, versículo 13)


4 comentários:

  1. Ricardo, excelente o seu site!! Sempre que alguém me pede referências sobre a Revolução Constitucionalista de 1932, mando procurar o seu site.

    Ainda a respeito disso, enviei um e-mail para o vereador Coronel Telhada, para que os vereadores da nossa cidade corrijam um desrespeito histórico que temos na cidade de São Paulo. Aparentemente, até o momento, o vereador ainda não deu seguimento a minha solicitação, mas talvez com a ajuda da sua divulgação, ele possa levar adiante. Segue abaixo o e-mail que enviei ao vereador, veja se você não concorda com minha solicitação:

    Prezado vereador,

    aproveitando a proximidade da comemoração dos 81 anos do início da Revolução Constitucionalista de 1932, peço que proponha a correção de um desrespeito à nossa história feito pelo ex-prefeito Celso Pitta, ao nomear a passarela existente sobre Avenida Nove de Julho (ligando as ruas Professor Picarolo e Engenheiro Monlevade) de "Passarela Getúlio Vargas".


    O decreto 36.952, de 10 de julho 1997 (http://camaramunicipalsp.qaplaweb.com.br/iah/fulltext/decretos/D36952.pdf), com o intuito de homenagear a Fundação Getúlio Vargas, que se situa próxima a referida passarela nomeou a mesma de "Passarela Getúlio Vargas", fazendo involuntariamente uma homenagem ao ex-presidente que negava a promulgação de uma nova constituição para o Brasil garantindo a autonomia dos estados brasileiros, o que desencadeou a Revolução Constitucionalista de 1932.

    É um desrespeito aos nossos bravos paulistanos e paulistas que lutaram pelo nosso Estado e um enorme contra-senso que o ex-presidente Getúlio Vargas seja homenageado justamente sobre a avenida que homenageia a data cívica mais importante do Estado de São Paulo. Talvez nome da passarela deva fazer uma homenagem aos paulistas tombados durante o combate ou na pior das hipóteses, ser renomeada para "Passarela Fundação Getúlio Vargas" fazendo-se clara a homenagem que se pretendia no decreto.

    Atenciosamente,

    Gustavo Miranda da Silva
    gmirandasilva@gmail.com

    ResponderExcluir
  2. Como é bom recordar a época de ouro de São Paulo.

    ResponderExcluir
  3. As ruas MMDC e Alvarenga no Butantã tem alguma coisa a ver com eles?

    ResponderExcluir