segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Álbum de família: memória, identidade paulista e a Revolução de 32

Trago hoje aos leitores do blog, uma importante colaboração da Professora Barbara Weinstein, chefe do Departamento de História da NYU New York University, com a qual tive a oportunidade de trocar algumas informações no final do ano passado. É um grande prazer saber que este blog é acessado por pesquisadores de fora do Brasil, e é muito bom poder compartilhar trabalhos sobre São Paulo produzidos no exterior, como fizemos no ano passado com uma matéria da Historia y Vida Magazine da Espanha.

Barbara Weinstein, já publicou dois livros sobre a história do Brasil que foram traduzidos e lançados por aqui. Se dedica desde 1998 a uma pesquisa sobre a identidade paulista tendo a Revolução de 32 e o IV Centenário como temas principais. Em meu nome e também em nome dos leitores do blog, agradeço a Professora Weinstein pela colaboração!

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Álbum de família: memória, identidade paulista e a Revolução de 32
Barbara Weinstein
Departamento de História
New York University

Num breve, mas instigante ensaio intitulado 1932: Imagens Contraditórias, Emília Viotti da Costa observa que “como toda revolução, a de 32 gerou sua mitologia”[1]. Por sinal, esse ensaio acompanhou uma preciosa coleção de documentos organizada por Ana Maria Camargo e distribuída pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo em 1982, quando a Revolução de 32 completou 50 anos. Com este ensaio, Emília Viotti levou o debate sobre 32 a um novo nível, transferindo o enfoque de uma discussão “positivista” sobre as causas e motivos que levaram os paulistas a pegarem em armas contra o regime getulista, para os vários usos de histórias e memórias de 32, e os imaginários – muitas vezes contraditórios – que se sustentaram no legado da Revolução. A meu ver, o ensaio mudou o discurso sobre 32 da esfera da “objetividade” para a questão da subjetividade[2].

Seguindo a linha de argumento primeiramente articulada nesse ensaio há trinta anos, a apresentação a seguir pretende examinar os diferentes usos de 32 em dois momentos específicos: o de 1954, ocasião do IV Centenário da Fundação da Cidade de São Paulo, e o de 1957, o ano do Jubileu de Prata da Revolução Constitucionalista[3]. A escolha dessas datas reflete duas considerações: a primeira, e mais óbvia, é que foram dois pontos cronológicos, um referente às grandes comemorações de 9 de julho e outro referente à variedade de festejos e publicações em torno do tema de 32. A segunda é que esses momentos – que ocorreram numa época de surto de nacionalismo e intensificação de tensões na esfera política – foram especialmente complicados e ricos para a comemoração de uma revolução aparentemente “regional” e “regionalista”[4].

Tanto em 54 quanto em 57, podemos perceber duas correntes relativas à representação dos eventos de 32. Elas não se encaixam no típico binômio “a favor” ou “contra” a Revolução de 32. Nesse sentido, as imagens aparentemente não são nada contraditórias – todas representam 32 como motivo de orgulho ou de algo positivo; aliás, os comentaristas nem discutem a revolução neste sentido. O que distingue uma vertente de outra não é a questão de julgar a revolução como uma causa justa ou não. É muito mais uma questão de quem pode se identificar com o espiríto de 32 e qual é o significado do movimento constitucionalista no contexto dos anos 50. Eram essas questões, e de certa forma a “sensibilidade” invocada nas comemorações, que distinguiram uma corrente de outra.

Como era inteiramente previsível, o IV Centenário em geral foi uma expressão de intenso regionalismo e triunfalismo. Os festejos e eventos foram organizados por representantes das elites paulistas (tanto intelectuais como empresariais), entre eles homens e mulheres com ligações estreitas com a revolta de 32. Ao mesmo tempo, era um momento cheio de tensões entre aqueles cuja intenção era usar a Revolução Constitucionalista como emblema de paulistanidade, num sentido que excluía muitos habitantes de São Paulo da categoria “paulista”; enquanto outros grupos envolvidos na política eleitoral e mais sensíveis ao crescimento de sentimentos nacionalistas procuravam ampliar o significado de “32”[5].

Apenas três anos depois, os paulistas comemoraram o Jubileu de Prata da Revolução Constitucionalista. Na época destes festejos, em 1957, foi evidente uma alteração nas representações da “causa paulista,” que agora estava sendo reimaginada como uma luta pela democracia (um tema que não aparece com frequencia na época da Revolução). Porém, podemos perceber que uma certa construção “paulista/ liberal” da democracia continuava ancorada numa noção de direitos de cidadania como algo que pertence mais às regiões modernas e “progressistas” do Brasil e menos às regiões “atrasadas” (WEINSTEIN, 2006, ps. 281-306)[6].


[1] (COSTA, 1982, p.1)
[2] A historiografia de 32 é grande demais para mencionar todos os trabalhos importantes. Uma boa introdução à sua história é o pequeno estudo de CAPELATO, 1982
[3] Sobre o IV Centenário da Cidade de São Paulo, veja LOFEGO, 2004, e ARRUDA, 2001.
[4] Sobre a questão da memória de 32, veja BORGES, 1997, e RODRIGUES, 2012.
[6] Barbara Weinstein, “Racializando as diferenças regionais: São Paulo X Brasil, 1932,” Esboços, no. 16, Florianópolis, 2006, 281-303.

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