segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Trincheira em São Bento do Sapucaí

No final de semana passado, visitei uma cidadezinha no interior de São Paulo onde é possível se hospedar em um hotel que mantém uma trincheira de 1932 e um pequeno museu com objetos da época. A visita foi muito agradável e de fato o local tem uma história interessante a ser contada.

São Bento do Sapucaí é uma cidade situada bem no meio das montanhas da Serra da Mantiqueira, no Estado de São Paulo, que faz divisa com Campos do Jordão, Santo Antonio do Pinhal, Sapucaí Mirim, Gonçalves e Brasópolis, Piranguçú e Paraisópolis, como podemos ver abaixo no Mapa das Frentes de Batalha de J.W. Rodrigues.

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O surgimento de São Bento do Sapucaí, primeiramente batizada Terras Altas do Sapucaí, foi impulsionado pelo bandeirismo e a mineração. Acreditava-se que a região ocultava uma grande oportunidade para a extração de ouro, o que foi o principal atrativo para a vinda dos sertanistas da região. Com o declínio da exploração do ouro, os desbravadores foram percebendo a riqueza do solo das Terras Altas do Sapucaí - assim, o cultivo do fumo, da cana-de-açúcar e do café foi possibilitando o crescimento do lugarejo que, após ter sido elevado à categoria de Freguesia, no ano de 1832, passou à Vila, em 1858, e quase uma década depois, tornou-se Cidade pela Lei nº 48, finalmente tornando-se Estância Climática em 26 de janeiro de 1976.

Durante a Revolução de 32 os voluntários de São Bento dispersaram-se por toda a divisas da região para não permitir a entrada de tropas Getulistas por nenhuma delas. A população assustada, em sua maioria, se escondia no mato e até no forro de suas próprias casas com medo dos soldados. Ninguém saia nem entrava na cidade e em caso de muita urgência, havia o salvo-conduto, tirado na estrada de Paraisópolis, antes da divisas. Os alimentos ficaram racionados e se adotou o sistema de fichas, pessoas foram requisitadas para trabalharem na abertura de trincheiras e pontes, além da abertura de picadas no mato. Havia ainda os que transportavam as armas para as trincheiras. Ocorrendo a revolução em tempo de plantio, a lavoura foi muito prejudicada; por outro lado, boa parte dos homens se alistou como voluntários a fim de garantir a sua subsistência e a de seus familiares, outros que permaneceram em seus lares não podiam plantar, pois corriam o risco de serem atingidos por balas perdidas.

Trincheiras foram abertas na divisas dos dois estados, Minas e São Paulo, na estrada que liga São Bento do Sapucaí a Paraisópolis, numa posição que privilegiou a tropa paulista no duro combate que ali se travou no dia 30 de setembro. O fogo cruzado durou cerca de vinte e quatro horas, quando a ordem de cessar fogo chegou ao quartel general. Conta-se que na noite de combate, a população entrou em pânico e se evadiu em sua maioria, alguns se escondendo no morro do Cruzeiro, outros fora da cidade. A tropa paulista não sofreu nenhuma baixa. Quando a ordem de cessar fogo chegou ao quartel general de São Bento, a revolução já havia terminado há dois dias. Após cessar fogo, a cidade foi invadida pela Tropa federal, mas foi uma ocupação pacífica; a maioria dos soldados paulistas se embrenhou no mato e alcançaram estradas mais seguras, com medo de represálias.

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O General Julio Marcondes Salgado morou em São Bento antes de se alistar na Força Pública de São Paulo.

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Abaixo vemos o interior da Pousada do Quilombo que foi construída no início dos anos 2000 no alto de um morro no Bairro do Quilombo, justamente em cima de um dos sistemas de trincheiras que defendeu a cidade em 1932 - e é esse o grande mérito do proprietário do hotel que optou por preservar a história ao invés de simplesmente tapar a trincheira, o que infelizmente é mais comum!

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A direita na foto abaixo vemos um corredor com a trincheira. O bambuzal foi plantado justamente para preservar o local. Esta enorme trincheira segue morro acima.

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No alto do morro, ainda dentro do hotel, é possível ver a trincheira cavada fundo na terra - preservada 82 anos depois.

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Do alto do morro além da cidade vemos a Mantiqueira e a famosa Pedra do Baú.

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Alguns objetos que foram encontrados durante a construção do hotel estão preservados em uma pequena casinha de pau a pique que funciona como um museu da revolução para os hóspedes e para as escolas da região. É louvável a iniciativa do hotel em manter este acervo.

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Outra atração à parte é uma escultura em madeira de um soldado constitucionalista de autoria do famoso Ditinho Joana, um dos maiores artistas populares do Brasil, nascido e criado no Bairro do Quilombo bem perto do hotel.

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Deixamos nossa mensagem no livro de hóspedes. Fica aí a dica para quem quer passar um final de semana comendo bem e hospedado no charmosíssimo hotel construído em um local histórico. O link da Pousada do Quilombo é www.pousadadoquilombo.com.br

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5 comentários:

  1. Muito legal. Adoro lugares bucólicos como esse. Lembra São Paulo antiga. E bota antiga nisso. Parabéns pela iniciativa.
    Jayme Correa

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  2. Outro belo presente do blog para seus leitores. Parabéns aos proprietários do hotel dessa bela região do nosso glorioso estado.

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  3. João Marcos Carvalho24 de setembro de 2014 10:12

    Quem dera encontrássemos dezenas de lugares como esse onde a história bandeirante é preservada. Mantiqueira, bela, bela, bela !!! Parabéns Ricardo pela garimpagem histórica que você nos presenteia nesse blog fantástico.

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  4. Ola Ricardo,tudo bem? Parabens pelas fotos e pelas informação.
    Aqui nos arredores Itapira,sapucai m.g.Barão A.Nogueira e fazenda Malheiro tem muitas trincheiras,
    Grande abraço Gnçalo

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  5. Somos um país tão rico em história,porém cada dia mais essa história se escoa pelo ralo!!!Triste :'(

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